A unidade original do homem e da mulher na humanidade!


Resumo das Audiência Geral de João Paulo II onde ele reflete sobre a unidade original do homem e da mulher na humanidade.
As palavras do livro do Gênesis Não é conveniente que o homem esteja só são quase um prelúdio da narrativa da criação da mulher. Com esta narrativa, o sentimento da solidão original entra a fazer parte do significado da unidade original, cujo ponto chave parecem ser precisamente as palavras de Gênesis 2, 24, a que se refere Cristo na sua conversa com os fariseus: O homem deixará o pai e a mãe, e unir-se-á à sua mulher, e serão os dois uma só carne. Se Cristo, referindo-se ao «princípio», cita estas palavras, convém-nos precisar o significado dessa unidade original, que mergulha as raízes no fato da criação do homem como macho e fêmea.
[...] o homem, de fato, desde o princípio é «macho e fêmea». O texto javista do capítulo segundo, pelo contrário, autoriza-nos em certo modo a pensar primeiro, somente no homem enquanto, mediante o corpo, pertence ao mundo visível, mas ultrapassando-o; depois, faz-nos pensar no mesmo homem, mas através da duplicidade do sexo. Corporeidade e sexualidade não se identificam completamente. [...]
Segundo o texto javista, no qual a criação da mulher foi descrita separadamente (4), devemos ter diante dos olhos, ao mesmo tempo, aquela «imagem de Deus» da primeira narrativa da criação. A segunda narrativa conserva, na linguagem e no estilo, todas as características do texto javista. [...] Sem qualquer dificuldade, sobre o estrato da antiga narração, descobrimos aquele conteúdo, verdadeiramente admirável no que diz respeito às qualidades e à condensação das verdades, que nele estão encerradas. Acrescentemos que a segunda narrativa da criação do homem conserva, até certo ponto, uma forma de diálogo entre o homem e Deus-Criador, o que se manifesta sobretudo naquele período em que o homem (‘adam) é definitivamente criado como macho e fêmea (‘is-’issah). A criação efetua-se quase contemporaneamente em duas dimensões; a ação de Deus-Javé ao criar desenvolve-se em correlação com o processo da consciência humana.
Assim pois, Deus-Javé diz: Não é conveniente que o homem esteja só; vou dar-lhe uma auxiliar semelhante a ele.. E ao mesmo tempo o homem confirma a própria solidão. A seguir lemos: Então o Senhor Deus adormeceu profundamente o homem; e, enquanto ele dormia, tirou-lhe uma das costelas, cujo lugar preencheu de carne. Da costela que retirara do homem, o Senhor Deus fez a mulher e conduziu-a até ao homem. Tomando em consideração o carácter próprio da linguagem, é preciso antes de tudo reconhecer que muito nos faz pensar aquele torpor do Génesis, no qual, por obra de Deus-Javé, o homem cai em preparação para o novo ato criador. Sobre o fundo da mentalidade atual habituada a ligar ao mundo do sono conteúdos sexuais, aquele torpor pode suscitar uma associação particular Todavia a narrativa bíblica parece ir além do subconsciente humano. [...]
Seja como for, à luz do contexto de Gên. 2, 18-20 nenhuma dúvida há de o homem cair naquele «torpor» com o desejo de encontrar um ser semelhante a si. Se podemos, por analogia com o sono, falar aqui também de sonho, devemos dizer que este arquétipo bíblico nos permite admitir, como conteúdo daquele sonho, um «segundo eu», também ele pessoal e igualmente relacionado com o estado de solidão original, isto é, com todo aquele processo de estabilização da identidade humana relativamente ao conjunto dos seres vivos (animalia), enquanto é processo de «diferenciação» entre o homem e tal ambiente. Deste modo, o círculo da solidão do homem-pessoa quebra-se, porque o primeiro «homem» desperta do sono como «macho e fêmea».
A mulher é feita «com a costela» que Deus-Javé tirara ao homem. Considerando o modo arcaico, metafórico e imaginoso, de exprimir o pensamento, podemos estabelecer tratar-se aqui de homogeneidade de todo o ser de ambos; tal homogeneidade diz respeito sobretudo ao corpo, à estrutura somática, e é confirmada também pelas primeiras palavras do homem à mulher recém-criada: Esta é realmente o osso dos meus ossos e a carne da minha carne (Gên. 2, 23). [...] Assim pois, a mulher foi criada, em certo sentido, sobre a base da mesma humanidade. A homogeneidade somática, não obstante a diversidade da constituição ligada à diferença sexual, é tão evidente que o homem (macho), despertando do sono genético, a exprime imediatamente, ao dizer: Esta é realmente osso dos meus ossos e carne da minha carne. [...] A alegria para o outro ser humano, para o segundo «eu», domina nas palavras do homem (macho) pronunciadas à vista da mulher (fêmea). Tudo isto ajuda a estabelecer o significado pleno da unidade original. Poucas são aqui as palavras, mas cada uma tem grande peso. Devemos portanto ter em conta — e fá-lo-emos em seguida — o facto de aquela primeira mulher, «criada com a costela tirada … ao homem» (macho), ser imediatamente aceita como auxiliar semelhante a ele.
Fonte: Blog Canção Nova